Ser Professor - Catarse 2

Ser Professor e levar "nas trombas"

          Há uns tempos, tive a ocasião de publicar num jornal local (e já lá vai mais de um ano), aquilo que considerava, naquele tempo, como a melhor resposta ao clímax de menosprezo da actividade profissional de um professor. Não interessam os meandros e muito menos as razões que me levaram, então, a fazê-lo. Sentia, na altura, que o meu papel de educador tinha atingido a valorização mínima por parte da sociedade. A meu lado, o esteio moral que me impelia ao trabalho: os encarregados de educação dos meus alunos e, acima de tudo, eles próprios.

          Hoje, existe a noção de que toda a gente pode imiscuir-se na actividade pedagógica do professor e, se necessário, ensiná-lo a ensinar... Porque é fácil lidar com a pequenada! É por isso que se vai à escola e se dão umas valentes bofetadas na professora... Punir o meu filho só porque deu, num ataque de euforia, três caneladas na Auxiliar de Acção Educativa?! Isso é lá razão para lhe tirar o intervalo!? Por favor, que exagero… Basta ouvir a voz de quem sabe: aquele senhor psicólogo que ronrona na televisão, com voz de catequista, que diz que os meninos ficam com trauma permanente por atitudes de tamanha incompreensão! Mas eu compreendo.

          Há gente que pensa que a sua afirmação pessoal como membro dinâmico da sociedade acresce exponencialmente na medida em que evidencia os defeitos dos seus congéneres. E quando não têm ninguém em quem bater, vão ao futebol e atiram vitupérios aos árbitros, jogadores, treinadores, jornalistas… É uma medida rebuscada e detersiva que amiúde se destina a assear a consciência da sua inépcia profissional, familiar e do seu egotismo, isto é: quanto mais satirizo o outro, mais me evidencio aos meus próprios olhos ou aos de quem desejo projectar esta melodramática imagem de filantropo intercessor dos frágeis e oprimidos. É sabido, no entanto, que a ânsia de protagonismo esconde, amiúde, o estrépito de uma vida latente sustentada na polémica, despicienda de altruísmo, devotada à patética tentativa de denegrir o outro porquanto ofusca o seu desempenho social.

          Partilho, assim, o sentimento de ineptidão substantiva na defesa da importância da minha produtividade, enquanto professor, patenteada no blogue de um amigo e colega (NP). Comenta ele que a culpa remanesce na atitude desconcertantemente displicente do Ministério da Educação... Pois bem: Isso é apenas o corolário consequente da aplicação criteriosa e perspicaz de uma política de cata-vento… Enquanto for eficaz dizer mal dos professores e isso melhorar o meu desempenho político, é bom... É mesmo muito bom! Como resultado prático até posso poupar uns trocos congelando as suas carreiras, ou fragmentando a suas capacidades de reivindicação dividindo-os em categorias, ou congelando-lhes o tempo de serviço, ou aumentando-lhes a idade de reforma, etc.

          E o estúpido, que não é funcionário público, aplaude, com fragor, sem se dar conta de que, com este aplauso, condena a sua própria carreira à estagnação… Hei-de falar sobre isto mais tarde!

          NP, estou contigo!

sinto-me:
publicado por margarido às 23:17
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