Catarse 5 - Ainda a Matemática

                                    Ainda a Matemática       

         Não é de agora a constatação de que existem áreas deficitárias na formação inicial e contínua dos professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico. Este diagnóstico intemporal sustentado pela metodologia da investigação, defendido por inúmeros autores, pugna por renovadas orientações ao nível da actualização didáctica de competências, especificamente, neste grau de ensino. Aqui, a questão que nos parece fulcral é a seguinte: fará sentido estabelecer a necessidade de existência de uma política de investigação educacional permanente quando esta se confronta com o desfasamento da inconstância, desconcerto, ineptidão ou apenas mero desinteresse pela avaliação precisa da proficiência da escola que hoje temos?

É do domínio do senso comum o reconhecimento de que, no novo sistema organizacional da educação, a escola primária remanesce (quer se queira quer não), como um mero acrescento à estrutura organizativa das EB 2,3, estando a sua importância pedagógica aí diluída.

Assim, salvo raras excepções, a escola primária apresenta-se como objecto vulgar de figurado interesse público, alvo espargido de eloquentes opiniões políticas e casa onde todos mandam: Pais, Associações de Encarregados de Educação, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Conselhos de Docentes, Conselhos Pedagógicos, Conselhos Executivos, Sindicatos… Até de fora da comunidade educativa é usual divulgarem-se pareceres, sentenças, sugestões, conselhos veiculados através dos media.

O que menos importa, afinal, é o professor primário, a quem cabe o convénio de elemento charneira do sistema, mas sem direito a intervenção decisória… É um operário que mantém o sistema em funcionamento (e ponto final).

O seu papel encontra-se, deste modo, enfraquecido, restando-lhe o cumprimento de um conjunto de tarefas educativas que, hoje, nem tão-pouco se podem proclamar como curriculares, pois já se introduzem outras (extra-curriculares) em pleno horário lectivo, ultrapassando-se todas as concepções e princípios psicopedagógicos advindos de longos e esforçados anos de investigação (Freinet, Montessori, Rousseau, João de Deus… Quem se lembra deles?).

Em suma, podemos afirmar que em inúmeras escolas deste país a importância da Matemática surge com de vector formativo valorizado pelos próprios professores, ao mesmo tempo em que lhe é retirado o devido fulgor pedagógico em favor de emergentes e mais nobres áreas: Jogos e Desporto (não Expressão Físico-Motora curricular), Música (não Expressão Musical curricular), Trabalhos Manuais (não Expressão Plástica curricular) ou Inglês.

Esclarecendo melhor: em vez de se aproveitar o período de “frescura intelectual” dos alunos para se trabalhar a Matemática (logo de manhã, às nove horas) dá-se-lhe Jogos Desportivos, deixando-se esta área para mais tarde, para ser posteriormente abordada por intelectos esgotados e pelo desconforto dos corpos transpirados. Acontece amiúde…

A escola primária é, nesta data, um redil de crianças e o professor, o seu apascentador. Nesta conjuntura, é natural que a deficitária Matemática se nos afigure como o menor dos males…

Contudo, esta área, como herança cultural e estímulo intelectivo de resolução de situações problemáticas, como forma integrada de esclarecimento da evidência das linhas de raciocínio usadas ou como ferramenta interdisciplinar de compreensão da ciência ou da tecnologia, tem, do nosso ponto de vista, demasiada proficuidade como para se poder descurar uma formação contínua de professores deste calibre (apesar do nosso natural e evidente desencanto, atrás legitimado).

Alicerçada à virtuosidade destes factores está a contextualização articulada de uma formação teórica que revela, mais tarde, no local de trabalho de cada agente educativo, o seu concernente carácter prático. A autoformação, a partilha de experiências, de conhecimentos e de materiais produzidos, enquadrados pela supervisão de um professor especialista, são aspectos aos quais reconhecemos mérito conceptual.

Todavia, a escola continua decrépita, sem material didáctico, com professores submergidos em burocracia e perdidos em reuniões ordinárias compulsivas, sem assunto para além do tão-somente administrativo… Com alunos em escalões etários que vão dos cinco aos nove anos, que aí se depositam durante sete horas diárias e que, depois, ainda são arrastados para os ATL, locais onde tomaram apressado pequeno-almoço, logo às oito da manhã, chegando extenuados para um frugal jantar em casa, deitando-se logo de seguida… Com os impávidos pais dependurados na telenovela da noite[1].

Enriquecemo-nos nas acções de formação com o reconhecimento desse interesse… Para bem da nossa escola. O sucesso da Matemática está lá… Negligenciado neste desmazelo cultural, escondido só na vontade do professor.



[1] O romance rebuscado no uso da linguagem pretensiosamente literata é propositado.

sinto-me:
publicado por margarido às 15:14
link do post | comentar