A Técnica do Pijama - Catarse 3

A Técnica do Pijama

O ser humano gosta, por princípio enraizado nos genes, de dirigir, de orientar, de controlar… Quer o faça relativamente a uma máquina, a um animal, a um objecto ou até mesmo (e especialmente) a outro ser humano. Depreende-se, então, de que não gosta, inversamente, de ser ele próprio o controlado por outrem.

Assim, quando nos sentimos manietados ripostamos, muitas das vezes com agressividade, em relação ao ente controlador. Mas o que sucede quando não conhecemos a identidade do maniqueísta… Do controlador? E se este for um ser obscuro, desconhecido, remanescente da álea, do imponderável, do metafísico? Bem, neste caso resta-nos rezar, ou vociferar lamentando audível e sofregamente a nossa desgraça, ou, em última análise, acatar, consternadamente, a fatalidade.

Atente-se ao caso do pijama.

As calças do pijama masculino têm um “trás”e uma “frente”… Mesmo as que não têm braguilha, a forma correcta de as vestir é com a etiqueta para trás, como toda a gente sabe… É óbvio! Até aquelas que não possuem etiqueta atrás é fácil confirmar que a parte traseira é mais larga do que a dianteira, por razões óbvias, também.

Contudo, se ousarmos colocá-las da forma errada, o desconforto provocado é tal que não conseguimos adormecer. Pelo menos é o que me acontece a mim… Ficam-me os genitais desaconchegados e o traseiro desagradavelmente apertado! Até acredito que tal não apoquente toda agente, pois há quem goste de sentir a costura no rego… Mas a mim, incomoda-me, confesso.

Curioso e inexplicável é o facto de que, quando visto as calças do pijama às escuras e não detecto, por palpação, quer a etiqueta, quer a braguilha, mas arrisco, ainda assim, vesti-las sem acender a luz, o que acontece sempre (mas sempre, mesmo!) é que fica vestido ao contrário: com o “trás” para a “frente”… Sempre!

Que fazer nestas situações?

Bem… Se quero dormir, lá tenho de as tirar, “volteá-las” e voltar a vesti-las, certificando-me (técnica apurada por largos anos de experiência) de que retiro uma perna do pijama e a piso com o pé do mesmo lado (para saber onde está), fazendo o mesmo com a outra perna, pisando-a, de igual forma e pelo mesmo motivo. Depois, com cuidado, solto-as com um pequeno salto (que, de quando em vez, me causa o aparecimento de nódoas negras nas canelas provocadas pela travessa de madeira da cama, facto justificado, posterior e cabalmente, pelo futebol das Quintas-Feiras à tarde), rodando-o, em simultâneo, com as mãos, cento e oitenta graus, no sentido dos ponteiros do relógio. E é só voltar a vesti-las. E lá evito acordar a esposa que se certificaria, com as naturais nefastas repercussões, das horas a que cheguei a casa.

O pior é que (facto ainda mais curioso e inexplicável), este ritual se repete sempre e quando chego mais tarde (o que é raro), isto é, nunca (mas mesmo nunca!), consigo vestir as calças do pijama às escuras, de forma correcta, à primeira: é sempre ao contrário! Tanto assim é, que já nem me preocupo em verificar se tem etiqueta ou se tem braguilha… Não adianta: tenho de o vestir, verificar (como esperado) que está ao contrário, despi-lo, utilizar a técnica de rotação atrás descrita e voltar a vesti-lo.

Por vezes pensava: “Bem, vou vesti-lo assim, tal como o apanhei, mas como sei que me calha sempre ao contrário, desta vez vou rodá-lo e a coisa vai correr bem!”. Engano meu! Afinal estava bem na forma original, mas, ao rodá-lo, inverti a posição correcta… Carago!

Outras vezes pensava: “Bem, desta vez deve estar na posição correcta, mas desconfio que o poderoso ente sobrenatural que me observa, por não ter mais nada do que fazer e gostar, particularmente, de me chatear a molécula, (para me punir pelas horas tardias de chegada a casa), no momento em que o visto, consegue, com um golpe de magia negra, rodá-lo de forma a que volte a pô-lo ao contrário. Mas hoje vai ser diferente! Vou enganá-lo!” Aqui, fingia que o rodava, mas, no último momento, vestia-o num ápice (para a magia não ter tempo de fazer efeito), tal e qual me tinha vindo parar às mãos… Sem êxito.

Já me habituei. Não há solução.

Aceito, consternado, a punição que, ainda assim, sempre é menor do aquela que adviria se, por audácia, ousasse interromper o cândido sono da minha amada esposa, acendendo a luz.

Mas, o que mais me aborrece ainda (se couber) é reconhecer que este ente sobrenatural, que me assombra e se diverte às minhas custas, é o mesmo que, nas horas livres, se responsabiliza pela eleição dos governos em Portugal… Sim, que não somos nós que os escolhemos, como querem fazer-nos crer… Basta ver que, logo que as coisas começam a correr mal e o governo deixa de estar “em graça” (como é costume dizer-se) - por regra, cerca de um ano depois - é ouvir colegas, amigos e desconhecidos regozijarem-se sarcasticamente: “Bem-feito! Não fui eu que os lá pus!

Hilariante! Não conhecem o paradigma do pijama: é que, independentemente do governo que vestirmos, o certo certinho é arrependermo-nos porque estava ao contrário, termos vontade de o despir, rodá-lo cento e oitenta graus e voltar a vesti-lo!

Pois é! Só que isso não é possível, pois só eu conheço a técnica… Treinei-a com o pijama.

Por isso resta-vos apenas rezar, ou vociferar lamentando audível e sofregamente a vossa desgraça, ou, em última análise, acatar, consternadamente, a fatalidade…

Ou optais por ligar a luz antes de vestir o pijama…

PS: Dou formação em “Técnica do Pijama”.

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publicado por margarido às 19:22
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