Sexta-feira, 07 De Setembro,2007

Catarse 5 - Ainda a Matemática

                                    Ainda a Matemática       

         Não é de agora a constatação de que existem áreas deficitárias na formação inicial e contínua dos professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico. Este diagnóstico intemporal sustentado pela metodologia da investigação, defendido por inúmeros autores, pugna por renovadas orientações ao nível da actualização didáctica de competências, especificamente, neste grau de ensino. Aqui, a questão que nos parece fulcral é a seguinte: fará sentido estabelecer a necessidade de existência de uma política de investigação educacional permanente quando esta se confronta com o desfasamento da inconstância, desconcerto, ineptidão ou apenas mero desinteresse pela avaliação precisa da proficiência da escola que hoje temos?

É do domínio do senso comum o reconhecimento de que, no novo sistema organizacional da educação, a escola primária remanesce (quer se queira quer não), como um mero acrescento à estrutura organizativa das EB 2,3, estando a sua importância pedagógica aí diluída.

Assim, salvo raras excepções, a escola primária apresenta-se como objecto vulgar de figurado interesse público, alvo espargido de eloquentes opiniões políticas e casa onde todos mandam: Pais, Associações de Encarregados de Educação, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Conselhos de Docentes, Conselhos Pedagógicos, Conselhos Executivos, Sindicatos… Até de fora da comunidade educativa é usual divulgarem-se pareceres, sentenças, sugestões, conselhos veiculados através dos media.

O que menos importa, afinal, é o professor primário, a quem cabe o convénio de elemento charneira do sistema, mas sem direito a intervenção decisória… É um operário que mantém o sistema em funcionamento (e ponto final).

O seu papel encontra-se, deste modo, enfraquecido, restando-lhe o cumprimento de um conjunto de tarefas educativas que, hoje, nem tão-pouco se podem proclamar como curriculares, pois já se introduzem outras (extra-curriculares) em pleno horário lectivo, ultrapassando-se todas as concepções e princípios psicopedagógicos advindos de longos e esforçados anos de investigação (Freinet, Montessori, Rousseau, João de Deus… Quem se lembra deles?).

Em suma, podemos afirmar que em inúmeras escolas deste país a importância da Matemática surge com de vector formativo valorizado pelos próprios professores, ao mesmo tempo em que lhe é retirado o devido fulgor pedagógico em favor de emergentes e mais nobres áreas: Jogos e Desporto (não Expressão Físico-Motora curricular), Música (não Expressão Musical curricular), Trabalhos Manuais (não Expressão Plástica curricular) ou Inglês.

Esclarecendo melhor: em vez de se aproveitar o período de “frescura intelectual” dos alunos para se trabalhar a Matemática (logo de manhã, às nove horas) dá-se-lhe Jogos Desportivos, deixando-se esta área para mais tarde, para ser posteriormente abordada por intelectos esgotados e pelo desconforto dos corpos transpirados. Acontece amiúde…

A escola primária é, nesta data, um redil de crianças e o professor, o seu apascentador. Nesta conjuntura, é natural que a deficitária Matemática se nos afigure como o menor dos males…

Contudo, esta área, como herança cultural e estímulo intelectivo de resolução de situações problemáticas, como forma integrada de esclarecimento da evidência das linhas de raciocínio usadas ou como ferramenta interdisciplinar de compreensão da ciência ou da tecnologia, tem, do nosso ponto de vista, demasiada proficuidade como para se poder descurar uma formação contínua de professores deste calibre (apesar do nosso natural e evidente desencanto, atrás legitimado).

Alicerçada à virtuosidade destes factores está a contextualização articulada de uma formação teórica que revela, mais tarde, no local de trabalho de cada agente educativo, o seu concernente carácter prático. A autoformação, a partilha de experiências, de conhecimentos e de materiais produzidos, enquadrados pela supervisão de um professor especialista, são aspectos aos quais reconhecemos mérito conceptual.

Todavia, a escola continua decrépita, sem material didáctico, com professores submergidos em burocracia e perdidos em reuniões ordinárias compulsivas, sem assunto para além do tão-somente administrativo… Com alunos em escalões etários que vão dos cinco aos nove anos, que aí se depositam durante sete horas diárias e que, depois, ainda são arrastados para os ATL, locais onde tomaram apressado pequeno-almoço, logo às oito da manhã, chegando extenuados para um frugal jantar em casa, deitando-se logo de seguida… Com os impávidos pais dependurados na telenovela da noite[1].

Enriquecemo-nos nas acções de formação com o reconhecimento desse interesse… Para bem da nossa escola. O sucesso da Matemática está lá… Negligenciado neste desmazelo cultural, escondido só na vontade do professor.



[1] O romance rebuscado no uso da linguagem pretensiosamente literata é propositado.

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Quinta-feira, 31 De Maio,2007

Catarse 4 - Irrita-me...

Passadeiras irritantes

Irritam-me as estradas esburacadas na minha cidade (Guarda);
Irritam-me as passadeiras nas curvas;
Irrita-me que, em cada rotunda, locais onde o condutor abre os olhos para o demais tráfego com redobrada atenção, haja uma ou várias passadeiras… meticulosamente colocadas em cima de cada curva… e, se não houver boa visibilidade, tanto melhor: é mesmo aí que ela se pespega;
Irritam-me os paralelos soltos nas referidas passadeiras… que estão depois de cada rotunda… e em cada curva;
Irrita-me que apenas eu o veja.
Basta olhar para o Jardim José de Lemos… Onde estão todas as passadeiras à excepção de uma? E na grande recta que atravessa as obras do Polis, onde antigamente estava o quartel dos bombeiros, há alguma passadeira? Não! Onde a pintaram, então? Na única curva que aí existe... Irrita-me!

Aos automobilistas que visitem a minha vetusta cidade: cuidado, aqui não há passadeiras, mas sim passeadeiras... Os peões fazem questão de por aqui passearem, languidamente, nem se dando ao trabalho de parar, olhar e insinuar a passagem para que o condutor se aperceba das suas intenções. Assim, circulem com precaução, pois até eu já me vou contaminando por este desmazelo, enquanto peão!!!!

sinto-me:
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Quarta-feira, 28 De Março,2007

A Técnica do Pijama - Catarse 3

A Técnica do Pijama

O ser humano gosta, por princípio enraizado nos genes, de dirigir, de orientar, de controlar… Quer o faça relativamente a uma máquina, a um animal, a um objecto ou até mesmo (e especialmente) a outro ser humano. Depreende-se, então, de que não gosta, inversamente, de ser ele próprio o controlado por outrem.

Assim, quando nos sentimos manietados ripostamos, muitas das vezes com agressividade, em relação ao ente controlador. Mas o que sucede quando não conhecemos a identidade do maniqueísta… Do controlador? E se este for um ser obscuro, desconhecido, remanescente da álea, do imponderável, do metafísico? Bem, neste caso resta-nos rezar, ou vociferar lamentando audível e sofregamente a nossa desgraça, ou, em última análise, acatar, consternadamente, a fatalidade.

Atente-se ao caso do pijama.

As calças do pijama masculino têm um “trás”e uma “frente”… Mesmo as que não têm braguilha, a forma correcta de as vestir é com a etiqueta para trás, como toda a gente sabe… É óbvio! Até aquelas que não possuem etiqueta atrás é fácil confirmar que a parte traseira é mais larga do que a dianteira, por razões óbvias, também.

Contudo, se ousarmos colocá-las da forma errada, o desconforto provocado é tal que não conseguimos adormecer. Pelo menos é o que me acontece a mim… Ficam-me os genitais desaconchegados e o traseiro desagradavelmente apertado! Até acredito que tal não apoquente toda agente, pois há quem goste de sentir a costura no rego… Mas a mim, incomoda-me, confesso.

Curioso e inexplicável é o facto de que, quando visto as calças do pijama às escuras e não detecto, por palpação, quer a etiqueta, quer a braguilha, mas arrisco, ainda assim, vesti-las sem acender a luz, o que acontece sempre (mas sempre, mesmo!) é que fica vestido ao contrário: com o “trás” para a “frente”… Sempre!

Que fazer nestas situações?

Bem… Se quero dormir, lá tenho de as tirar, “volteá-las” e voltar a vesti-las, certificando-me (técnica apurada por largos anos de experiência) de que retiro uma perna do pijama e a piso com o pé do mesmo lado (para saber onde está), fazendo o mesmo com a outra perna, pisando-a, de igual forma e pelo mesmo motivo. Depois, com cuidado, solto-as com um pequeno salto (que, de quando em vez, me causa o aparecimento de nódoas negras nas canelas provocadas pela travessa de madeira da cama, facto justificado, posterior e cabalmente, pelo futebol das Quintas-Feiras à tarde), rodando-o, em simultâneo, com as mãos, cento e oitenta graus, no sentido dos ponteiros do relógio. E é só voltar a vesti-las. E lá evito acordar a esposa que se certificaria, com as naturais nefastas repercussões, das horas a que cheguei a casa.

O pior é que (facto ainda mais curioso e inexplicável), este ritual se repete sempre e quando chego mais tarde (o que é raro), isto é, nunca (mas mesmo nunca!), consigo vestir as calças do pijama às escuras, de forma correcta, à primeira: é sempre ao contrário! Tanto assim é, que já nem me preocupo em verificar se tem etiqueta ou se tem braguilha… Não adianta: tenho de o vestir, verificar (como esperado) que está ao contrário, despi-lo, utilizar a técnica de rotação atrás descrita e voltar a vesti-lo.

Por vezes pensava: “Bem, vou vesti-lo assim, tal como o apanhei, mas como sei que me calha sempre ao contrário, desta vez vou rodá-lo e a coisa vai correr bem!”. Engano meu! Afinal estava bem na forma original, mas, ao rodá-lo, inverti a posição correcta… Carago!

Outras vezes pensava: “Bem, desta vez deve estar na posição correcta, mas desconfio que o poderoso ente sobrenatural que me observa, por não ter mais nada do que fazer e gostar, particularmente, de me chatear a molécula, (para me punir pelas horas tardias de chegada a casa), no momento em que o visto, consegue, com um golpe de magia negra, rodá-lo de forma a que volte a pô-lo ao contrário. Mas hoje vai ser diferente! Vou enganá-lo!” Aqui, fingia que o rodava, mas, no último momento, vestia-o num ápice (para a magia não ter tempo de fazer efeito), tal e qual me tinha vindo parar às mãos… Sem êxito.

Já me habituei. Não há solução.

Aceito, consternado, a punição que, ainda assim, sempre é menor do aquela que adviria se, por audácia, ousasse interromper o cândido sono da minha amada esposa, acendendo a luz.

Mas, o que mais me aborrece ainda (se couber) é reconhecer que este ente sobrenatural, que me assombra e se diverte às minhas custas, é o mesmo que, nas horas livres, se responsabiliza pela eleição dos governos em Portugal… Sim, que não somos nós que os escolhemos, como querem fazer-nos crer… Basta ver que, logo que as coisas começam a correr mal e o governo deixa de estar “em graça” (como é costume dizer-se) - por regra, cerca de um ano depois - é ouvir colegas, amigos e desconhecidos regozijarem-se sarcasticamente: “Bem-feito! Não fui eu que os lá pus!

Hilariante! Não conhecem o paradigma do pijama: é que, independentemente do governo que vestirmos, o certo certinho é arrependermo-nos porque estava ao contrário, termos vontade de o despir, rodá-lo cento e oitenta graus e voltar a vesti-lo!

Pois é! Só que isso não é possível, pois só eu conheço a técnica… Treinei-a com o pijama.

Por isso resta-vos apenas rezar, ou vociferar lamentando audível e sofregamente a vossa desgraça, ou, em última análise, acatar, consternadamente, a fatalidade…

Ou optais por ligar a luz antes de vestir o pijama…

PS: Dou formação em “Técnica do Pijama”.

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Domingo, 18 De Março,2007

Ser Professor - Catarse 2

Ser Professor e levar "nas trombas"

          Há uns tempos, tive a ocasião de publicar num jornal local (e já lá vai mais de um ano), aquilo que considerava, naquele tempo, como a melhor resposta ao clímax de menosprezo da actividade profissional de um professor. Não interessam os meandros e muito menos as razões que me levaram, então, a fazê-lo. Sentia, na altura, que o meu papel de educador tinha atingido a valorização mínima por parte da sociedade. A meu lado, o esteio moral que me impelia ao trabalho: os encarregados de educação dos meus alunos e, acima de tudo, eles próprios.

          Hoje, existe a noção de que toda a gente pode imiscuir-se na actividade pedagógica do professor e, se necessário, ensiná-lo a ensinar... Porque é fácil lidar com a pequenada! É por isso que se vai à escola e se dão umas valentes bofetadas na professora... Punir o meu filho só porque deu, num ataque de euforia, três caneladas na Auxiliar de Acção Educativa?! Isso é lá razão para lhe tirar o intervalo!? Por favor, que exagero… Basta ouvir a voz de quem sabe: aquele senhor psicólogo que ronrona na televisão, com voz de catequista, que diz que os meninos ficam com trauma permanente por atitudes de tamanha incompreensão! Mas eu compreendo.

          Há gente que pensa que a sua afirmação pessoal como membro dinâmico da sociedade acresce exponencialmente na medida em que evidencia os defeitos dos seus congéneres. E quando não têm ninguém em quem bater, vão ao futebol e atiram vitupérios aos árbitros, jogadores, treinadores, jornalistas… É uma medida rebuscada e detersiva que amiúde se destina a assear a consciência da sua inépcia profissional, familiar e do seu egotismo, isto é: quanto mais satirizo o outro, mais me evidencio aos meus próprios olhos ou aos de quem desejo projectar esta melodramática imagem de filantropo intercessor dos frágeis e oprimidos. É sabido, no entanto, que a ânsia de protagonismo esconde, amiúde, o estrépito de uma vida latente sustentada na polémica, despicienda de altruísmo, devotada à patética tentativa de denegrir o outro porquanto ofusca o seu desempenho social.

          Partilho, assim, o sentimento de ineptidão substantiva na defesa da importância da minha produtividade, enquanto professor, patenteada no blogue de um amigo e colega (NP). Comenta ele que a culpa remanesce na atitude desconcertantemente displicente do Ministério da Educação... Pois bem: Isso é apenas o corolário consequente da aplicação criteriosa e perspicaz de uma política de cata-vento… Enquanto for eficaz dizer mal dos professores e isso melhorar o meu desempenho político, é bom... É mesmo muito bom! Como resultado prático até posso poupar uns trocos congelando as suas carreiras, ou fragmentando a suas capacidades de reivindicação dividindo-os em categorias, ou congelando-lhes o tempo de serviço, ou aumentando-lhes a idade de reforma, etc.

          E o estúpido, que não é funcionário público, aplaude, com fragor, sem se dar conta de que, com este aplauso, condena a sua própria carreira à estagnação… Hei-de falar sobre isto mais tarde!

          NP, estou contigo!

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Domingo, 04 De Março,2007

Matemática Versus Professor Primário - Catarse 1

Reflectir é, por ditame dicionário sustentado na filosofia, meditação, cálculo, raciocínio, ponderação, observação e comentário, aplicação do entendimento e da razão…

Contudo, uma definição mais próxima das leis da física estabelece, também, a reflexão como um desvio de direcção na presença de um obstáculo, um retrocesso… E nós preferimos esta última significação: desvela pragmatismo, sentido prático alicerçado à circunspecção; pressupõe mudança de atitude, adaptação conceptual e funcional das nossas acções. Reflectir como mero exercício intelectual perde importância por ausência de fundamento operante.

A ciência como compilação bibliográfica do conhecimento permite que qualquer leigo se possa cientificar… Basta ler e aceitar qualquer noção teórica inscrita num livro como verdade absoluta, impassível à contradição. Todavia, a ciência viva, humanizada, foi sempre a grande responsável pelos maiores impulsos evolutivos que tornaram o homem naquilo que é hoje… Pôr em causa o rigor de uma lei científica permitiu-nos prosperar.

Assim, a ciência deve ser encarada como ambígua, como preconiza Jean-Jacques Rousseau[1], não encontrando, este pensador, razão para que se substitua o conhecimento comum pelo científico, nem vislumbrando fundamento que valorize este último se não for como apêndice servil do primeiro.

Esta presunçosa convicção analítica que me permito ter acerca de uma matéria que, obviamente, não domino (peço desculpa pela audácia), serve de intróito a uma percepção pessoal que venho amadurecendo há longos anos acerca da matemática: é aceite como uma disciplina fechada ao critério reflexivo de alguns pensadores que congeminamos encerrados em gabinetes universitários, rodeados por fórmulas numéricas indecifráveis e passíveis de compreensão por uma parca minoria dotada de inteligência superior.

Este conceito de ciência isolada da realidade foi, na minha opinião, a obreira do fracasso do seu aprendizado na escola: tratamo-la como uma porção de conhecimento científico da qual retiramos leis quantificáveis que se aplicam, sem arbítrio pessoal nem esforço de entendimento, na resolução maçuda de problemas matemáticos desprovidos de sentido, afastados da vida mundana.

Na escola primária, então, a técnica de cálculo e a mecanização de processos dedutivos ou indutivos de pensamento por prescrição do receituário (livro) veiculada pelo professor e (pior ainda) pelos currículos, era uma tese que se alimentava com alarde, oriunda dessa concepção da matemática como sistema científico enfadonho e altivo, sobre a qual não se pode reflectir sob pena de se corromper a sua pesada e estrutural intelectualidade, ininteligível ao comum mortal.

E, neste quadro conceptual, formaram-se professores primários, coagidos com essa noção de fragilidade intelectual que lhe é esfregada na cara todos os dias na TV, hoje.

Este é o texto actualizado de uma realidade exarada num contexto singular que a sociedade já esqueceu: as escolas de formação inicial de professores não impunham o 12.º ano na área da matemática aos candidatos a professor… Nem tão-pouco se lhes exigia que tivessem feito o 12.º ano em coisa alguma… E, se recuarmos um pouco mais no tempo, não se lhes demandava que tivessem mais do que o antigo 5.º ano (actual 9.º); ou, ainda mais atrás, a 4.ª classe e uma boa cunha de um pai abonado e a sua filha imbecil, que não tinha jeito para mais nada (coitada), era transformada, à pressa, em professora primária.

Hoje, no proscénio do ano lectivo 2006/07, a tendência é voltar a preceituar-se a formação do professor primário com apenas um ciclo de estudos (três anos), menos dois anos do que para os restantes ciclos de ensino… Ideia justaposta a este princípio?! Na verdade, bem lá no fundo, professor primário, qualquer um pode ser, pois ensinar a ler escrever e contar (a mesma concepção, de há cinquenta anos atrás, veja-se a ironia) é tarefa fácil.

Mais tarde, remenda-se a coisa descarregando em cima destes profissionais da educação uma formação intensiva de dois anos na Matemática, ou/e em Língua Portuguesa e/ou, muito possivelmente, em Estudo do Meio. Seis anos de recuperação para rematar as competências subdesenvolvidas nas Escolas Superiores de Educação, nos cursos de formação de base. Repare-se que, portanto, a mesma escola que patenteia fragilidades na formação inicial de professores é aquela que vem, mais tarde, tentar ressarci-los através de cursos de formação em didáctica!

Mas, então, se os currículos estão mal, porque não se actualizam? Porque se não enriquecem as didácticas específicas e se não aprofundam os saberes orientados para um ensino mais proficiente? Porque continuam os professores recém-formados a sair destas escolas com as dificuldades que, posteriormente, deixam inscritas na mediocridade das turmas que tiveram a seu cargo? Aliás, as mesmas que nós evidenciámos anos atrás, é verdade, e que tivemos de ultrapassar com o amparo de alguma experiência orientada pelos conselhos dos professores mais calejados, a qual agradecíamos e acatávamos com humildade (facto que, na generalidade, não sucede com os recém-chegados à carreira docente, com a soberba que lhes é conhecida de doutos).

A orientação pedagógica de um professor mais antigo como cooperante na formação de novos docentes (os antigos metodólogos) parece-nos fundamental. Nós aprendemos com eles aquilo que a licenciatura nos não deu. Porquê esperar? Tragam-nos para as ESE e constatar-se-á que o seu contributo não é despiciendo de sentido.

Pensamos, também, que a autonomia curricular deveria ser deixada às universidades, centros de investigação, de intervenção e edificação científica. As Escolas Superiores de Educação ficariam incumbidas de formar pedagogos, técnicos especializados no ensino, orientando as sinergias instrutivas de reconhecida excelência dos seus formadores para esta função.

Mestrados e doutoramentos? Sim, mas posteriormente, depois de alguns anos de serviço e de provas prestadas através do contributo da sua dedicação e do seu trabalho. Assegurava-se, deste modo, a dilatação da qualidade da prática pedagógica do professor como elo importante do sistema educativo…

Defendemos uma formação adquirida nos pólos educativos das universidades (que podem e devem ter assento nas ESE) como extensões formativas assentes em pressupostos de competência esteada na prática. Neste sector, a aquisição dos graus de mestrado ou doutor, sem nunca se ter exercido a função de professor, é, no mínimo, bizarra: é como se alguém pudesse ser bom mecânico sem nunca ter visto um carro desmontado… Ou como um trolha que almejasse rebocar uma parede sem nunca ter feito massa…

            (...) O registo desta opinião vale o que vale (pouco) – são as ideias de professor primário que pensa que, até hoje, se perderam demasiadas oportunidades para se poder fazer formação de qualidade em áreas que estão reconhecidas como deficitárias ao nível deste grau de ensino, tais como a Matemática ou as TIC, continuando a optar-se pela organização de cursos generalistas e de indelével opacidade de conteúdo, começando, desde logo, pela formação inicial, passando pelos CESE e terminando nos absurdos Complementos de Formação.

Se vamos passar os próximos anos em formação contínua é bom não esquecer que o contributo do professor primário na elaboração do inerente plano de estudos é fundamental. Já alguém se preocupou em saber, dentro da matemática, qual é a nossa maior dificuldade? Ou parte-se do princípio que a matemática é a dificuldade? Ou somos todos tão ineptos que tudo o que fazemos nesta disciplina é resíduo?

(...)

Estamos convictos, de qualquer forma, que a insignificância do título que lhe atribuímos é directamente proporcional à importância do conteúdo que aqui deixamos (para usar linguagem matemática), e este último está em conformidade com o nosso estatuto de primário (embora a nomenclatura deste grau de ensino tenha sido mudada para um eufemista 1.º Ciclo, pueril tentativa de o colocar ao nível dos restantes). Logo, ninguém se vai dar ao trabalho de ler isto, estamos certos, (dizemo-lo sem ironia).

Mesmo assim, atente-se: Rousseau tinha razão. A ciência que nos ensinais não retira importância ao conhecimento que já detemos… Apenas o acrescenta e o valoriza, transformando-o em senso comum.

Que se use a bitola, mas não se institua a mediania.



[1] Rouseau, J.J., Discour sur les Sciences et les Arts, 1750.

publicado por margarido às 12:27
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Teste

Se qualquer um pode fazer comentários na TV, então eu tenho o mesmo direito... Isto não é a TV (eu sei), mas também ninguém se vai dar ao trabalho de se interessar por aquilo que digo. Deste modo, este blog serve de catarse pessoal... Simples!

 

jorge

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publicado por margarido às 12:09
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